Rascunho - Ultimo edit 13/12
Devo ter conhecido Ka há mais de um ano. Sua aparência encolhida não me chamava atenção, os detalhes de seus atos exibiam uma pessoa boa. Não tínhamos muito contato no começo, mas meses depois já passávamos muito tempo juntos.
A primeira vez que beijei ela foi inesquecível, o risco daquela noite era enorme, ainda tinha outra pessoa próxima, tudo pra dar errado, Azul É A Cor Mais Quente passando no notebook e ainda paramos no meio por estar incomodando a Vik. No dia seguinte ela veio me deixar claro que não haveria nada entre nós, não pedi muitas explicações. Meses depois, outro desastre. Uma intimidade estranha, como se estivéssemos olhando dentro do nariz um do outro. Acho que dessa vez nada precisou ser dito, já ficou subentendido que não era nada, foi a mais fria de todas. Não dava pra ser mais rápido que isso, podiam ser meses de intervalo, não dá pra sugerir algo tão fácil se uma de nossas primeiras conversas foi sobre traumas sexuais (ela com uma pessoa próxima e eu nem sabia o que era sexo e já tinha feito algumas vezes antes dos 14). No mesmo dia fomos ao circo, ela estava muito feliz, ainda guardo as entradas na minha carteira. Foi uma das primeiras vezes que vi ela feliz por tanto tempo e passando tantas horas sem ser rejeitada por alguém.
A primeira, quase de manhã, com uma menina ao lado, ela estava fria. A segunda, no dia do circo, na casa dela, parecia confusa. A terceira, ela tinha o corpo mais quente que das outras vezes, se não me engano foi por uma conversa com alguém que me disse não, parece que por teste. Não antes ou não depois são iguais, significam que nada vai acontecer - e é constrangedor perguntar o motivo pois depilação, humor, menstruação, ou é só um não para um cara com quem ela só fez duas vezes. Na quarta vez foi a única que conversamos sobre, parecia estar surpresa com aquilo ter sido bom pra ela. "Aquilo foi maravilhoso, mas...". A forma que fizemos não foi a mais repetida, tentei errado achando que seria melhor, o problema dela não parecia ser com o órgão masculino (eu por exemplo, tenho problema com ele) e sim com o ser masculino, a imagem daquele que já a fez mal. Foi bom ver ela indo até um cara que tinha feito um vídeo dela com uma amiga para dizer pra ele apagar aquilo, ela sequer pediu ajuda. Dizia que gostava de meninas e de mim, um enorme elogio pra mim, que não sinto a menor vontade de ser confundido com um homem.
Antes mesmo de chegarmos no Uruguai ela já estava totalmente livre de qualquer bloqueio, e eu, como sempre, ali do lado, pronto para passar na casa de várias garotas do interesse dela e juntar todas no mesmo local. Da menina que tinha vergonha de ficar por cima para a que pode começar sem que você esteja acordado, ganhando confiança que precisava até mesmo ser limitada - por favor, nada de flertar com quem está no local de trabalho.
No começo desse ano nossos conhecidos já sabiam o que não era dito, eu gostava dela, e até usavam isso. Odeio festa surpresa. A única pessoa capaz de me convencer a qualquer coisa, e eu descobri que seria a única com quem eu não iria brigar sem medo. Medo e confiança aumentavam juntos. O máximo que consigo ao ficar bravo com ela é ficar emburrado e ao mesmo tempo com remorso dela estar percebendo.
Ajudar Ka em qualquer coisa era sempre muito recompensador, me sentia útil, sentia retribuindo a alegria que a energia positiva dela me dava. Ela trazia uma melhor versão de mim. Fui alertado pela Day de que isso podia gerar abuso da parte dela, algo ignorado dentro de uma semana, minha confiança nela era acima de qualquer outra pessoa, mas nossa, como terceiros influenciaram em nós, devo ter ficado uns dias sem falar com ela por causa disso esperando para saber sobre como eu deveria agir. Na verdade, eu queria mesmo que ela fizesse isso, queria que ela soubesse o dia todo que alguém estaria do lado dela, disposto para ela, confiando nela e também sabia que, como parece que isso não era algo normal na vida dela, ela iria precisar de um tempinho para aprender a lidar. Acordar e dormir sem a dúvida se hoje seria barrada na porta, ignorada ou rejeitada. Eu tinha energia e experiência para alcançar objetivos, ela tinha muitas vontades e curiosidades, era bom.
Mas, mesmo assim, mudanças no meu trabalho pediam mudanças na minha vida. Não ter expectativas amorosas com ela não significava que não poderíamos, quem sabe, trabalhar juntos. Ainda era a pessoa que dormia comigo quase sempre, sabia tudo sobre mim e se envolvia em encrencas comigo. Como eu morava no bar que iria vender eu iria precisar de uma casa e ela reclamava da república onde estava. Eu iria ficar sem emprego e ela reclamava do emprego que tinha, mas teríamos dinheiro para investir em algo. Ela ignorou qualquer plano por quase um mês. Eu não iria tomar uma decisão importante sem, exaustivamente, pensar nas consequências nela.
Enfim resolvo me mudar, Uruguai, e cada dia da minha vida a partir daí parece conter um mês de novidades. As regras da relação, antes tão sólidas, mudavam antes que eu conseguisse aprende-las. Mas ela parecia cada dia mais feliz, sempre com mais sonhos e planos, que não haviam antes. Europa estava logo ali, se quiser vamos ao Japão, outras cidades do Brasil também podem ser cogitadas, tudo apresentando opções e o que teríamos que fazer para conseguir. Nada de limitar ela ao que julgavam ser seus limites, é hora de decidir seus limites. Eu não sei o que está acontecendo, mas parece bom, vou apenas seguir confiando nela. Após uma noite em que ouvi “você não percebe que sou apaixonada por você?” eu literalmente levei um tombo (fisicamente e em minhas expectativas), desde então tentamos acertar nossa vida juntos.
Pontos críticos nesse período:
• Ka tem problemas para assumir gostar de mim, não sei a origem deles. Não ter nada oficial com ela é um problema pra mim e me limita perante outras pessoas, como ficar reprimido na casa dos pais dela, mas ela bolia comigo até mesmo lá. Antes de conhecê-los pensei que seriam severos, mas me trataram com muito afeto. Tenho muito orgulho dela, e muita vontade de expor isso.
• Debra conversa com ela sobre ir junto comigo ao Uruguai, pra mim ela diz que ficaremos juntos, pra ela que não tem nada a perder. A constante indecisão de Ka faz com que nossa ida não seja bem planejada.
• Tudo corre bem lá, exceto pela constante falta que sente da Day (que tinha se mudado para o MT e passado semanas sem dar noticias), planejamos anos promissores. Ainda não temos sequer um namoro, mas já temos até planos de casamento.
• Ka é firme e indelicada. Afirmar que eu deveria lavar louça pois ela tem emprego é o tipo de atitude que ela tem sem pensar muito, não ter emprego e ser reprovado em um teste me faz passar por semanas em casa, ninguém quer ser um peso. Um dia planeja filhos comigo, no outro conta animada sobre a possibilidade de um encontro amoroso com um colega de trabalho. Eu realmente não sei lidar com ambos. Estamos aprendendo muita coisa nova, temos que nos ajudar em tudo.
• Após contato com a Day encontro ela fisicamente machucada, isso faz mal a nós dois. Mas não para aí, isso é um episódio importante. Eu uma vez vi uma namorada minha falando mal de mim para a melhor amiga dela, ela esperava que eu reagisse mal. Talvez ela nunca tenha visitado um salão de beleza ou uma oficina mecânica, aquele lugar onde pessoas se reúnem e falam mal de outras. Com outras pessoas eu posso ser idiota, falar besteira, com a pessoa que eu gosto e onde os sentimentos importam muito eu sou a melhor versão de mim mesmo. Ou as pessoas não aprenderam isso ou são extremamente insensíveis aos sentimentos da Ka, não podem falar pra ela qualquer coisa e não se importar com as consequências, ela não tem um coração de pedra, tudo fica muito intenso nela.
• Além de sofrer com uma inflamação no dente ela perde o emprego. Após nos sentirmos no paraíso começamos a cair, se tivéssemos segurado a mão um do outro nesse momento já estaríamos de pé e os próximos problemas nem existiriam. Mas ela tem seu orgulho e não pode se sentir menor, as condições não ajudaram. Eu tenho meus medos e não soube expor pra ela, veio tudo de uma vez. Cada vez mais problemas, cada vez menos tempo.
• Há receio nela em juntar nossa renda e despesa, porém imprevistos fazem com que ela, muito a contragosto, precise de dinheiro. Celular, remédios, contas básicas e orgulho ferido entraram na cesta. Sem emprego ela dependeria de mim (disseram pra ela que estava sendo um peso pra mim), mesmo ganhando muito bem no Uruguay eu temo por não saber convencer ela de que aquilo é nosso e sem ela eu não estaria conseguindo nada. Com ela tenho energia para trabalhar 12 horas, sete dias por semana, sem ela seis horas parecem um enorme fardo. Segundo ela, em casais japoneses, a mulher fica com o dinheiro e paga as contas, mas ela não quis ficar com ele, no máximo eu o deixava em casa em uma mochila e, até o último dia em que moramos juntos, ela soube onde estava e tinha a liberdade de pegá-lo.
• Tento demonstrar constante cumplicidade, seguindo o que já fazia meses antes de começarmos a nos relacionar – ainda somos amigos ou já somos algo além. Deixo trabalho e outras coisas de lado para acompanhar ao médico, passeio, atividades cotidianas ou mesmo ficar parado ao lado quando ela sentia dor no dente, mas não posso deixar de trabalhar pois passarei a ser nossa única renda. É muito fácil ajudar ela quando pede algo, quando não pede vou com comida e horas de abraço, resolvem.
• Quando fica desempregada e reclama de saudades de amigas decidimos atrasar o sonho no Uruguai e voltar para o Brasil. Por preferir ter renda individual ela já está em alguns milhares de reais atrás de mim em gastos no Uruguay. Ela é competitiva, mesmo comigo. Recua em termos um orçamento único mas também recua em pagar sua parte, ela não quer ter menos que eu, adoro isso nela. Se eu resolvo ficar lá ganhando belos 6 mil por mês iria assistir ela passar pelo que eu passei quando chegamos, eu iria estar trabalhando e ela não, se eu que não sou tão orgulhoso achei péssimo. Os planos mudam, a esperança não, escolher entre dinheiro e a felicidade dela é fácil.
• Chegando aqui carece de delicadeza no trato das amigas e mãe dela, passa a morar comigo na casa da minha mãe onde não precisamos pagar comida ou aluguel. As amigas nunca tiveram grande tato, ainda lembro dela me acordando bem cedo para passar em uma feira de rua onde compraria uma coxinha e então eu deveria levá-la até a casa de uma amiga que não a deixaria passar pela porta por estar com o namorado. Temos que refazer nossos planos, ela não quer ficar no Brasil muito tempo. Tento focar em trabalhar por não saber resolver nada, estou ficando deprimido e menos esperançoso, mas é momento de aguentar firme. Sempre foi momento de aguentar, de ter paciência, de tratar ferida por ferida dela, mas eu estava deixando as minhas de lado.
• Com excesso de problemas acaba demonstrando enorme desmotivação, passando o dia sem atividades. Ignorar ter um relacionamento comigo e, então, não ter um motivo para estar em casa, traz discussões com minha mãe. Ninguém poupa Ka, sinto a pressão sobre ela. Eu já tinha visto isso antes, e já tinha conseguido ajudar ela, nem que seja apenas subindo no alto de um prédio para assistir o nascer do Sol. Mas agora eu também estava mal. Não gastava energia nem para pensar, era tudo para trabalhar ou estar pronto caso ela precisasse de algo.
• A mãe dela faz seguidas pressões; que busque um emprego de pacoteira em supermercado, que eu enjoaria dela. Não sei como reagir a isso, é apenas pragmatismo da mãe dela que já tem vários outros problemas, tento tornar uma chacota, na minha cabeça ambos são absurdos. Digo que não precisa aceitar qualquer emprego, não ficará desamparada, tenho em mim a ideia que resolveremos tudo rápido. Tudo que afeta o orgulho dela tem peso maior, colocar compras em sacolas já é demais. Penso em pagar para ela cuidar da reforma de uma casa em Apucarana, mas preciso trabalhar para isso e os dias estão muito curtos para soluções, muito longos para problemas.
• Uma visita à Day no MT parece uma boa oportunidade de animar ela. Mas a falta de planejamento e a ausência de espaço na vida da Day não são o esperado. Uma capivara acaba sofrendo um acidente no caminho, que também deve ter aumentado o stress da Ka. Ela estava dirigindo o carro com o qual eu trabalhava, nem o acaso poupa ela. Acordei assustado e quando vi aquilo, uma vontade de gritar, mas era a Ka que estava ali comigo, tão ou mais nervosa e preocupada quanto eu. Estou bem perto do limite de quanto tempo consigo segurar os problemas calado.
• A visita ao Brasil parece que irá se esticar, tento sempre me referir aos problemas como nossos. Ka começa a ficar introvertida, ela que falava 26 horas por dia passa a ficar quieta. Após alguns dias na casa dos pais ela se comunica de forma espaçada, não manda informações completas, parece distante. Revejo o dia em que ela se machucou, tenho um pico de stress, brigo com ela. Paro de trabalhar, ando na calçada, ela tem o direito de fazer o que quiser consigo mesmo, eu não posso evitar ou brigar com ela por isso. O problema cresceu demais, precisamos de ajuda. Encontro depois de muito tempo com amigos, bebendo em uma praça, teria desmarcado um encontro naquele dia, estava muito abalada. Cerca de meia hora depois já estávamos melhor, dormimos juntos, teria sido apenas um problema passageiro. Sinto vergonha do que fiz, não acho que me desculpei o suficiente, sinto vergonha das pessoas ali também.
• Querer trabalhar por muitas horas, ter receio de ser também uma pessoa a pressionando, não saber o que posso pedir, ela distribuir o tempo dela entre várias casas e o número constante de novidades em pouco tempo me faz atrasar conversas importantes.
• Ka me manda mensagem durante o dia, discussão com minha mãe, queria se mudar. Digo que busque outro lugar e nos mudaremos. Debra oferece um quarto, ela vai na frente. Ao chegar lá não sou aceito, Ka fica mesmo assim. Ainda que triste com a decisão dela, preferia ela em um hotel do que aceitando ficar onde não posso entrar, aceito e já coloco nosso quarto para alugar. Debra tem namorado e Jeny já havia dito sobre não querer um homem lá. Compro briga dela com minha mãe, fico sem cartão de crédito, não sei onde irei ficar se ela não achar um lugar rápido.
• Dois dias depois busco ela para um lanche (vai ser um dia importante onde tenho que contar que logo não terei onde morar), ela diz que quer morar em um lugar sem que eu more nele. Estraguei a confiança que ela tinha em mim, tento encerrar a conversa para pensar com calma e resolver aquilo depois. Ainda não sei como ela escolheu esse momento para me dizer aquilo, menos de meia hora depois parecia arrependida. Ela insiste que não estamos terminando, peço para entrarmos e conversamos, ela diz que não posso, que ela mora em um lugar onde não sou bem-vindo. Entro em desespero, Debra chega, peço minhas coisas que ficaram lá, ela chega a entregar até o celular, pedi, mas recusei, não estou raciocinando mais, vou embora. Pedir minhas coisas é o jeito desnorteado que tenho de dizer que vou embora, ao invés dela ser contra ela defende o bem material, realmente não estamos nos entendendo.
• Dias depois, sem entender a situação, tento contato, não consigo. Outras pessoas me dão informações sobre ela. Estaria saindo com outras pessoas, estaria machucada, estaria depressiva. Dizem que fiz mal para ela e que agora ela não sai do quarto, que está morando de favor e não fala com ninguém. Não estou me alimentando ou dormindo normalmente há mais de um mês.
• Ela tinha devolvido também meu cartão de crédito que entreguei quando fomos visitar a Day, mas também fiquei sem ele. Como ela estava sem dinheiro nem emprego peço para outras pessoas que entreguem para ela. Enviei dinheiro várias vezes, além de chocolate e repelente, não sei quanto chegou pois não tive contato com ela, mas era tudo que eu tinha por mais de semana, quase um salário. Penso que temos problemas, mas ainda devo lealdade.
• Entrei em contato com todos que consegui, todos deram informações pela metade e ninguém demonstra saber o real problema, ou todos sabem um e são muitos. A madrinha dela é a familiar que acreditei poder entrar em contato, chama Ka de mentirosa, deixo de confiar nela e mudo o assunto da conversa. Passo a não ter nenhuma informação confiável de seu estado.
• Com problemas de dinheiro, ainda reparando o carro, resolvendo sobre minha moradia, e com muitas informações ruins sobre o estado dela, eu resolvo ir na casa da Debra, idiotice. Mas eu não aguentava mais falarem que ela estava mal e ela permanecer em silêncio. Eu nem saberia como ajudar, mas fui. Sou devidamente mal recebido, Ka não estava lá, encontro ela em um ponto de ônibus, ela tem machucados na perna, uma marca roxa no pescoço, me sinto mal de quase cair no chão. Diz sentir saudades, mas não pode me ver, sai andando sem nenhum desfecho, pede para que eu me comunique pelo Facebook. Continuo querendo falar com ela, nada na minha cabeça faz sentido, Debra chega, ela vai embora. Meu corpo todo treme em uma mistura de fome, sono e medo, parecia louco. O desespero estraga qualquer chance de diálogo.
Com todos esses problemas em nenhum momento chegamos a brigar de forma a dizer claramente um ao outro que alguma atitude desagradou. Uma enorme falta de comunicação e ruídos externos. Todos problemas que tivemos pareciam que poderiam ser resolvidos em pouco tempo ou que não seriam motivos para esse desfecho. É fácil passar por cima de um ponto fora da curva de alguém estressado, mas a exceção não pode virar rotina.
Após conversa com psicólogas:
No dia que eu fiquei correndo atrás dela por que ela agia estranho eu não sei se conversei com ela o motivo, pois não toco no assunto. Mas foi por eu ter um problema mal resolvido da última vez que cheguei em casa e ela estava se machucando. Mas depois parecia que nada seria motivo, e ficava difícil se desculpar por agir mal se estávamos mal todos os dias. Eu teria que ter aprendido como falar. É a primeira vez que começo a ouvir mais de uma interpretação. A vida dela, é dela, eu só posso ajudar se convidado.
Ela também me contou que eu dizia pra ela que ela só dava trabalho. Eu não deveria dizer isso, deveria contrariar ela. Mas eu estava mais preocupado em coisas como não contrariar a relação com os pais ou o por ela não assumir nada comigo do que lembrar ela o quanto minha vida era melhor quando ela ajudava em tudo.
Sou comunicativo, menos com ela, o receio em colocar qualquer pressão nela fica claro em detalhes. Eu não me arriscava por ela. A mãe dela fala com naturalidade que ela foi demitida por causa do atestado, eu que sabia disso semanas antes não falei pra ela se preparar.
Ela dormir todo dia comigo, mas falar em conhecer outras pessoas, fazia ela entender que eu tinha uma segurança que eu não tinha, eu não expunha isso. Há um ego ferido, ela falar da Day não me atinge em nada pois sou citado em condição de igualdade, já com outras pessoas nada está claro. Eu não falo, ela não entende. Culpa minha. A menina largou tudo e viajou comigo pra outro país, ela é corajosa. Eu não consigo nem falar com ela. Ela me falar que está apaixonada dias antes de irmos, mas não assumir um namoro comigo nem para estranhos na rua faz, na minha cabeça, uma dúvida sobre o como juntos estamos.
Parece que há em mim um bloqueio em ouvir quem cogita criticar ela. O que pode me impedir de ouvir coisas úteis. Não posso tentar falar com ela sem saber os efeitos disto. Passar por dias ruins foi fácil por várias vezes, mas quando os dias eram seguidos passou a nos fazer mal. Ela foi a primeira a perceber que não estávamos conseguindo. Sigo buscando pessoas que apontem meus erros. Não acreditando nos meus julgamentos tento agora listar fatos e perguntar muito para outras pessoas.
Listando erros:
• Já conheci a Ka tendo diversas cicatrizes no corpo, nunca conversamos sobre como lidar com isso. Day parecia saber sobre o tema e procurei ouvir, ninguém está preparado. Não me preparei, não tinha nenhuma experiência e não busquei ajuda devida.
• Ka me dizer que já estávamos como casados, mas não dizer nada aos outros, era sinal de problema que não fiz nada sobre. Parece que as únicas pessoas que ela disse ter falado sobre isso eram colegas de trabalho no Uruguai, com as quais não tive nenhum contato e mesmo assim não parecia algo sério, uma experiência dela em dizer que era casada com duas pessoas ao mesmo tempo.
• Ansioso, por solução/compreensão dos fatos, eu falei com quase todo mundo que tinha algum contato com ela, mas eram pessoas que não falavam comigo antes. Julguei que eles eram parte do problema, brigava e implorava ajuda simultaneamente. O único limite era que algo prejudicasse ainda mais Ka, então não questionei ela (antes, depois, presencialmente, por internet) nem seus pais. Conversas apenas por texto com pessoas que não me conheciam foi um erro.
• Tivemos um relacionamento muito intenso sem um período de adaptação, sem nome que o definisse, foram dois meses apenas, mas mesmo após quase o mesmo período eu ainda não como ou durmo direito pensando em como ela foi afetada.
• As diferentes versões que cada pessoa passou a me apresentar da Ka, junto com o hábito de me dizer algo e aos outros outra coisa, normalmente sob pressão, me fizeram não saber que decisão tomar. Acreditei que ambos não estávamos sãos. Passei a pensar que sem uma ordem direta da Ka – seja de aguardar, esquece-la ou fazer algo – seguir e ignorar seria como traição/abandono. Agora apenas aguardo e busco ajuda profissional.
Resultados positivos:
Ka tinha medo de tomar decisões, até mesmo de encerrar um curso que ela não tinha vontade de ir. Ter tido a coragem de largar o emprego que ela tanto reclamava e embarcar em uma aventura dessa vai mudar a vida dela pra sempre.
Havia um bloqueio de libido nela, em pouco tempo já tinha a incentivado a entrar no Tinder, rever seus interesses, cogitar interesse em meninas. De interesse nenhum passou a alguém que tinha dez vezes mais libido que eu. Desinibida a ponto de conseguir flertar com estranhos ao primeiro encontro e não ter medo de expor publicamente seus desejos.
Tinha dirigido pouco até então, mas dirigiu vários carros que alugamos, no Brasil e no Uruguay. Aprendeu um pouco de espanhol e a menina que mal falava com colegas de trabalho agora conversava com pessoas de vários cantos do mundo. Inclusive as primeiras puxadas de assunto para falar com alguém que ela tinha interesse eu vi começar. A liberdade dela conseguir qualquer coisa era mais importante que a expectativa de definir qualquer relação entre nós.
Da menina que era vista como a pequenina do grupo para a mulher que causava inveja. Se por um lado discutir com as amigas não era bom, o motivo me fez feliz. Ka estava construindo suas histórias.
Abusos que cometi:
- Com minha primeira namorada havia uma diferença de libido de cerca de 10%, coisa minima, com um e com outro, era algo que oscilava. Com a segunda nem minha coxa era perdoada, a diferença sempre foi notável, não chegou a ser um problema. Com a terceira foi, eu quase sempre queria fazer minha parte de uma forma alternativa, mas não percebi a dimensão do problema até depois de terminarmos, informado por terceiros. Com Ka eu sentia vontade, mas não chegaria a ser algo diário. Eu queria bem menos do que ela, era uma de nossas atividades motivo de atrasar ir trabalhar, eu sentia uma pressão por não chegar ao meu clímax (um medo também disso se tornar um problema), e parecia fazer bem para ela. Eu apoiei e até ajudei ela a conseguir fazer isso com outras pessoas, além de conversar com outras pessoas sobre como me comportar quando ela faz isso. No final ela se sentiu manipulada por mim, tudo isso seria um plano para ela querer ficar comigo (ainda lembro que nos últimos dias que vi ela uma de nossas conversas era sobre insistirmos em ela ter melhores experiências com mulheres - eu era sempre a pessoa para quem ela falava em ir e eu já ligava o carro). Tenho que aprender em como minhas ações a manipularam a querer ficar comigo, já que ela disse isso.
- Não só ficar comigo, Ka deveria ser hétero. De alguma forma eu a manipulei para isso. Mas estou relendo uma conversa de oito meses atrás quando eu estava dando conselhos de que não se declarasse bi para Fran, menina que estava na minha casa e com a qual poderia rolar algo (mas ela tinha preconceito com bis). Também fui o primeiro a fazer questionar essa opção, a ter a ideia de viajarmos até a Day, pedi diretamente pra Day, incentivei ela a entrar em redes sociais de encontro no Brasil e no Uruguay. Demonstrei desejo de que não fosse omitido de mim os acontecimentos, mas ainda não aprendi como minhas ações manipularam ela na direção de ser hétero.
Manipulações que já conheço:
- Não me envolvo amorosamente com alguém com intenções que não sejam nutrir sentimentos entre nós. Não posso fazer isso por me sentir sozinho, por estar com raiva ou saudades de outra pessoa. Não devo desejar uma pessoa e estar com outra. É algo que sei identificar fácil, um erro que não vou cometer. Mas não garanto que sei quais as intenções de Ka comigo nos últimos meses. Cheguei a ouvir que ela dizia gostar de mim apenas para não ficar sozinha, ou para que eu não parasse de fazer coisas por ela. Isso seria um erro, pois eu me sentia bem mais seguro em relação a nós dois quando ela dizia um não e agia como um não, do que quando a forma de agir e falar não combinavam.
- Entender 'não' como 'sim', o 'não' como 'algum desafio', palavras terem sentidos diferentes do que deveriam ter era pra mim uma falha de caráter masculina machista. Se a pessoa não está bêbada ou em lágrimas por um problema recente não tenho motivos pra duvidar dela. Baseado nisso que a primeira vez que tentei ficar com a Ka tinha outra menina perto, outra foi na casa dela, sempre de forma em que ela tivesse facilidade em dizer não. Ao mesmo tempo isso me dificulta entender que dizer não para ela seria uma forma de manipular, ou que apoiar ela ter relações héteros, homo ou bissexuais era também uma forma de manipular ela (eu não disse para ela desistir em nenhum momento, ao contrário, que tudo sempre tenderia a melhorar). Meu sim era sim, meu não era não, o pouco que eu conseguia dizer não tinha dois sentidos.
Desfecho:
Na última vez que a vi ameacei contar aos pais dela, a ameaça mais vil que imaginei no momento, pedir para alguém interceder naquela loucura. Como resposta ela finalmente disse para alguém que tem um relacionamento comigo, que se transformou em um ano e que continha agressão. Ao menos foi o que ela disse para alguém na delegacia da mulher.
Era a pessoa para quem eu acordava de madrugada para verificar se estava suada, e isso a faria se coçar e se machucar, ou se a noite tinha começado quente e, após chutar a coberta, estava com frio, mas agora era a pessoa que me queria preso.
Em nenhum momento eu deixei ou passei a gostar menos dela. O que mudou é que agora não pareço mais útil.
Prática e teoria:
Não quero fazer mal, seja para Ka ou qualquer outra pessoa. Então não estou em condições de ter um relacionamento com ela ou outra pessoa se não sei identificar e corrigir meu comportamento. Mas é algo tão confuso que ninguém chega a um consenso. Podemos todos afirmar que Ka se sentiu manipulada e abusada, mas se pergunto como deveria ter sido não encontro resposta.
Se manipulei ela para gostar de mim, então todo mundo que gosta de outra pessoa fez o mesmo em algum momento.
Se manipulei ela para se relacionar afetivamente comigo então ela fez isso mais do que eu. Em muitas vezes eu não estava à vontade, o que pode ficar claro na minha dificuldade de chegar ao clímax, cada vez mais frequente com o passar do tempo. Fica demonstrado também que a ideia de relações com outras pessoas era uma condição dela em resposta a ter sido o motivo de separação com seu ex. Em nenhum momento o não dela foi ignorado ou o sim dela para outras pessoas foi reprimido (alerta para que eu cheguei a conversar com outra pessoa sobre como eu deveria me comportar - como o que fazer caso ela traga um estranho para nosso quarto, se eu tenho que sair e coisas assim), (alerta para que eu também achei que poderia pedir para ser informado sobre os acontecimentos, também não é bagunça e existem métodos contraceptivos).
Se manipulei ela para ser heterossexual então é um enorme mal entendido. Poderia ser facilmente acusado do contrário, de ter manipulado ela para ser bi ou para ser gay. Mas heterossexual é ofensa. Não consigo nem comentar essa possibilidade.
Tudo que foi dito é bem claro e fácil de aceitar, a menos que de junte todos os fatos e coloque em prática. Podemos ter cometido erros, mas ou o fizemos em ignorância ou paramos de os cometer.
Intenções:
Ela me tinha na mão dela e sabia, e fez uso disso. Foram meses em que nossa amizade era um refúgio para ela frente aos problemas com outras pessoas. E eu não iria querer brigar com a pessoa que eu mais gostava. Ela sabia disso e me mantinha por perto sem um claro interesse em mim. Eu me sentiria mal se fizesse isso com alguém, mas não acho que a intenção dela era me fazer mal, apenas pensava que aquilo faria mais bem à ela que mal a mim.
Ela chegou a confessar que sabia desse controle e que a abusava dele, eu pedi que ela tivesse moderação nele. Quando a situação dela melhorou e passo a precisar menos de mim aquilo cessou.
Até agora não vejo nenhum de nós tendo algum comportamento que tivesse como objetivo fazer mal ao outro. Sempre ouvimos o outro e consultamos outras pessoas para aprender como agir.
Não entendo ainda a raiz de dizerem que ela sentia medo que eu fosse perseguir ela. Eu fiquei por duas semanas aguardando ela entrar em contato e só fui falar com ela por dizerem demais que ela sofria. E não entrava em contato com ela, mesmo precisando muito da ajuda dela, por achar que ela estava melhor que eu e seria pior me ver como eu estava. Recebo tanta informação dela que sequer precisaria procurar ela, acho que fiquei sabendo do seu emprego assim que começou, das psicólogas, das ações que foi tomando contra mim. Não encostei um dedo sequer nela, ao contrário, quase desmaio ao ver seu corpo com marcas. Não sei como ela conseguiu concluir que alguém que estava incondicionalmente do seu lado poderia ser uma ameaça.
Momento de tensão:
Errei em não deixar Ka ciente das consequências de seus atos. Assim como não avisei que ela seria demitida eu não avisei que eu dependia de planos com ela para ter onde morar. Quando disse que ela estava me abandonando ela não deve ter entendido que eu não sabia onde iria morar e estava com medo, dividir um lugar com ela seria muito importante naquele momento de vários problemas financeiros.
Ka foi orientada em desistir do diálogo comigo, mas tínhamos tantos problemas que eu também acharia tentador apenas fazer o que outra pessoa dizia com a promessa de que tudo ficaria bem. Porém eu tenho uma resistência maior que a dela em aceitar quem fala mal da pessoa que eu confio.
Caso suspenso até novidades:
Eu não poderia ter medo dela, nem ela poderia ter medo de mim, para conseguirmos passar por tanta turbulência. Cheguei a conversar com ela de que teríamos problemas assim como os que ela diziam que os pais dela enfrentaram. Mas tivemos pouco tempo para nos preparar e o mais importante, não conseguimos deixar o outro seguro, sem uma base não dá pra só ir dormir no sofá e resolver amanhã. Sem um compromisso tudo acaba na primeira tempestade.
Futuro próximo:
Ka já se machucou uma vez por achar que estava sendo uma pessoa ruim, se eu for preso com uma acusação de estupro preciso de uma ótima ideia de como ter certeza que ela não sentirá nenhuma culpa. A confusão dela vai durar menos que a minha pena. Eu não vou proteger ela de suas decisões pra sempre, mas posso não estar aqui para ver como isso continua.
Digamos que tudo isso passe, não ficamos juntos, não resolvemos nossos problemas, não amadurecemos com nossos erros e continuamos deixando outras pessoas decidirem nossas vidas. Não é exatamente o que eu esperava de nós dois, ela tem mais potencial que isso.
Digamos que tudo isso passe, sobrevivemos a tudo isso e ainda conseguimos ficar juntos. Para isso acontecer nós teríamos que desfazer uma enorme bagunça com muitas pessoas que foram afetadas. Com certeza, se passar por isso iríamos passar fácil por quase qualquer coisa, mas eu iria carregar pra sempre um alerta acima da minha cabeça onde todos estariam prontos para me ver como problema onde ela só perdoou por pena.
Do meu lado, Ka é uma boa pessoa, mas não sei explicar para as pessoas que eu estou defendendo uma pessoa que faz tantas acusações contra mim e, mais, não sei como seria a relação com alguém que teria tanta noção do que pode fazer sem que eu desista dela, sinto que ela poderia pensar que me tem completamente em suas mãos. Junto a isso parece que ela não perceber isso esse tempo todo foi um dos principais motivos da maioria dos problemas.
Soluções:
Pra mim ninguém está fazendo nada por mal. Numa solução utópica eu colocaria todos em uma sala de aula com um grande quadro para desenhar todos acontecimentos e explicar como as coisas foram dando errado até onde chegaram e ficaria claro que fomos apenas vítimas do acaso, ingenuidade e falta de comunicação.
Mas nem todo mundo quer solução, tem gente que quer distanciar quem pensa diferente e calar a discussão. A solução mais fácil veio causando muita dor, a solução que melhor resolve vai precisar de muito esforço e maturidade.
Obs: Não gosto de chamar ela de Carol, ou de Carolina. Eu gosto de reler mensagem onde ela me chama de 'amô' e gosto de lembrar de momentos onde ela tinha tantos planos que era fisicamente impossível realizar todos, gosto de lembrar dela incomodando os outros com toda felicidade dela.
A primeira vez que beijei ela foi inesquecível, o risco daquela noite era enorme, ainda tinha outra pessoa próxima, tudo pra dar errado, Azul É A Cor Mais Quente passando no notebook e ainda paramos no meio por estar incomodando a Vik. No dia seguinte ela veio me deixar claro que não haveria nada entre nós, não pedi muitas explicações. Meses depois, outro desastre. Uma intimidade estranha, como se estivéssemos olhando dentro do nariz um do outro. Acho que dessa vez nada precisou ser dito, já ficou subentendido que não era nada, foi a mais fria de todas. Não dava pra ser mais rápido que isso, podiam ser meses de intervalo, não dá pra sugerir algo tão fácil se uma de nossas primeiras conversas foi sobre traumas sexuais (ela com uma pessoa próxima e eu nem sabia o que era sexo e já tinha feito algumas vezes antes dos 14). No mesmo dia fomos ao circo, ela estava muito feliz, ainda guardo as entradas na minha carteira. Foi uma das primeiras vezes que vi ela feliz por tanto tempo e passando tantas horas sem ser rejeitada por alguém.
A primeira, quase de manhã, com uma menina ao lado, ela estava fria. A segunda, no dia do circo, na casa dela, parecia confusa. A terceira, ela tinha o corpo mais quente que das outras vezes, se não me engano foi por uma conversa com alguém que me disse não, parece que por teste. Não antes ou não depois são iguais, significam que nada vai acontecer - e é constrangedor perguntar o motivo pois depilação, humor, menstruação, ou é só um não para um cara com quem ela só fez duas vezes. Na quarta vez foi a única que conversamos sobre, parecia estar surpresa com aquilo ter sido bom pra ela. "Aquilo foi maravilhoso, mas...". A forma que fizemos não foi a mais repetida, tentei errado achando que seria melhor, o problema dela não parecia ser com o órgão masculino (eu por exemplo, tenho problema com ele) e sim com o ser masculino, a imagem daquele que já a fez mal. Foi bom ver ela indo até um cara que tinha feito um vídeo dela com uma amiga para dizer pra ele apagar aquilo, ela sequer pediu ajuda. Dizia que gostava de meninas e de mim, um enorme elogio pra mim, que não sinto a menor vontade de ser confundido com um homem.
Antes mesmo de chegarmos no Uruguai ela já estava totalmente livre de qualquer bloqueio, e eu, como sempre, ali do lado, pronto para passar na casa de várias garotas do interesse dela e juntar todas no mesmo local. Da menina que tinha vergonha de ficar por cima para a que pode começar sem que você esteja acordado, ganhando confiança que precisava até mesmo ser limitada - por favor, nada de flertar com quem está no local de trabalho.
No começo desse ano nossos conhecidos já sabiam o que não era dito, eu gostava dela, e até usavam isso. Odeio festa surpresa. A única pessoa capaz de me convencer a qualquer coisa, e eu descobri que seria a única com quem eu não iria brigar sem medo. Medo e confiança aumentavam juntos. O máximo que consigo ao ficar bravo com ela é ficar emburrado e ao mesmo tempo com remorso dela estar percebendo.
Ajudar Ka em qualquer coisa era sempre muito recompensador, me sentia útil, sentia retribuindo a alegria que a energia positiva dela me dava. Ela trazia uma melhor versão de mim. Fui alertado pela Day de que isso podia gerar abuso da parte dela, algo ignorado dentro de uma semana, minha confiança nela era acima de qualquer outra pessoa, mas nossa, como terceiros influenciaram em nós, devo ter ficado uns dias sem falar com ela por causa disso esperando para saber sobre como eu deveria agir. Na verdade, eu queria mesmo que ela fizesse isso, queria que ela soubesse o dia todo que alguém estaria do lado dela, disposto para ela, confiando nela e também sabia que, como parece que isso não era algo normal na vida dela, ela iria precisar de um tempinho para aprender a lidar. Acordar e dormir sem a dúvida se hoje seria barrada na porta, ignorada ou rejeitada. Eu tinha energia e experiência para alcançar objetivos, ela tinha muitas vontades e curiosidades, era bom.
Mas, mesmo assim, mudanças no meu trabalho pediam mudanças na minha vida. Não ter expectativas amorosas com ela não significava que não poderíamos, quem sabe, trabalhar juntos. Ainda era a pessoa que dormia comigo quase sempre, sabia tudo sobre mim e se envolvia em encrencas comigo. Como eu morava no bar que iria vender eu iria precisar de uma casa e ela reclamava da república onde estava. Eu iria ficar sem emprego e ela reclamava do emprego que tinha, mas teríamos dinheiro para investir em algo. Ela ignorou qualquer plano por quase um mês. Eu não iria tomar uma decisão importante sem, exaustivamente, pensar nas consequências nela.
Enfim resolvo me mudar, Uruguai, e cada dia da minha vida a partir daí parece conter um mês de novidades. As regras da relação, antes tão sólidas, mudavam antes que eu conseguisse aprende-las. Mas ela parecia cada dia mais feliz, sempre com mais sonhos e planos, que não haviam antes. Europa estava logo ali, se quiser vamos ao Japão, outras cidades do Brasil também podem ser cogitadas, tudo apresentando opções e o que teríamos que fazer para conseguir. Nada de limitar ela ao que julgavam ser seus limites, é hora de decidir seus limites. Eu não sei o que está acontecendo, mas parece bom, vou apenas seguir confiando nela. Após uma noite em que ouvi “você não percebe que sou apaixonada por você?” eu literalmente levei um tombo (fisicamente e em minhas expectativas), desde então tentamos acertar nossa vida juntos.
Pontos críticos nesse período:
• Ka tem problemas para assumir gostar de mim, não sei a origem deles. Não ter nada oficial com ela é um problema pra mim e me limita perante outras pessoas, como ficar reprimido na casa dos pais dela, mas ela bolia comigo até mesmo lá. Antes de conhecê-los pensei que seriam severos, mas me trataram com muito afeto. Tenho muito orgulho dela, e muita vontade de expor isso.
• Debra conversa com ela sobre ir junto comigo ao Uruguai, pra mim ela diz que ficaremos juntos, pra ela que não tem nada a perder. A constante indecisão de Ka faz com que nossa ida não seja bem planejada.
• Tudo corre bem lá, exceto pela constante falta que sente da Day (que tinha se mudado para o MT e passado semanas sem dar noticias), planejamos anos promissores. Ainda não temos sequer um namoro, mas já temos até planos de casamento.
• Ka é firme e indelicada. Afirmar que eu deveria lavar louça pois ela tem emprego é o tipo de atitude que ela tem sem pensar muito, não ter emprego e ser reprovado em um teste me faz passar por semanas em casa, ninguém quer ser um peso. Um dia planeja filhos comigo, no outro conta animada sobre a possibilidade de um encontro amoroso com um colega de trabalho. Eu realmente não sei lidar com ambos. Estamos aprendendo muita coisa nova, temos que nos ajudar em tudo.
• Após contato com a Day encontro ela fisicamente machucada, isso faz mal a nós dois. Mas não para aí, isso é um episódio importante. Eu uma vez vi uma namorada minha falando mal de mim para a melhor amiga dela, ela esperava que eu reagisse mal. Talvez ela nunca tenha visitado um salão de beleza ou uma oficina mecânica, aquele lugar onde pessoas se reúnem e falam mal de outras. Com outras pessoas eu posso ser idiota, falar besteira, com a pessoa que eu gosto e onde os sentimentos importam muito eu sou a melhor versão de mim mesmo. Ou as pessoas não aprenderam isso ou são extremamente insensíveis aos sentimentos da Ka, não podem falar pra ela qualquer coisa e não se importar com as consequências, ela não tem um coração de pedra, tudo fica muito intenso nela.
• Além de sofrer com uma inflamação no dente ela perde o emprego. Após nos sentirmos no paraíso começamos a cair, se tivéssemos segurado a mão um do outro nesse momento já estaríamos de pé e os próximos problemas nem existiriam. Mas ela tem seu orgulho e não pode se sentir menor, as condições não ajudaram. Eu tenho meus medos e não soube expor pra ela, veio tudo de uma vez. Cada vez mais problemas, cada vez menos tempo.
• Há receio nela em juntar nossa renda e despesa, porém imprevistos fazem com que ela, muito a contragosto, precise de dinheiro. Celular, remédios, contas básicas e orgulho ferido entraram na cesta. Sem emprego ela dependeria de mim (disseram pra ela que estava sendo um peso pra mim), mesmo ganhando muito bem no Uruguay eu temo por não saber convencer ela de que aquilo é nosso e sem ela eu não estaria conseguindo nada. Com ela tenho energia para trabalhar 12 horas, sete dias por semana, sem ela seis horas parecem um enorme fardo. Segundo ela, em casais japoneses, a mulher fica com o dinheiro e paga as contas, mas ela não quis ficar com ele, no máximo eu o deixava em casa em uma mochila e, até o último dia em que moramos juntos, ela soube onde estava e tinha a liberdade de pegá-lo.
• Tento demonstrar constante cumplicidade, seguindo o que já fazia meses antes de começarmos a nos relacionar – ainda somos amigos ou já somos algo além. Deixo trabalho e outras coisas de lado para acompanhar ao médico, passeio, atividades cotidianas ou mesmo ficar parado ao lado quando ela sentia dor no dente, mas não posso deixar de trabalhar pois passarei a ser nossa única renda. É muito fácil ajudar ela quando pede algo, quando não pede vou com comida e horas de abraço, resolvem.
• Quando fica desempregada e reclama de saudades de amigas decidimos atrasar o sonho no Uruguai e voltar para o Brasil. Por preferir ter renda individual ela já está em alguns milhares de reais atrás de mim em gastos no Uruguay. Ela é competitiva, mesmo comigo. Recua em termos um orçamento único mas também recua em pagar sua parte, ela não quer ter menos que eu, adoro isso nela. Se eu resolvo ficar lá ganhando belos 6 mil por mês iria assistir ela passar pelo que eu passei quando chegamos, eu iria estar trabalhando e ela não, se eu que não sou tão orgulhoso achei péssimo. Os planos mudam, a esperança não, escolher entre dinheiro e a felicidade dela é fácil.
• Chegando aqui carece de delicadeza no trato das amigas e mãe dela, passa a morar comigo na casa da minha mãe onde não precisamos pagar comida ou aluguel. As amigas nunca tiveram grande tato, ainda lembro dela me acordando bem cedo para passar em uma feira de rua onde compraria uma coxinha e então eu deveria levá-la até a casa de uma amiga que não a deixaria passar pela porta por estar com o namorado. Temos que refazer nossos planos, ela não quer ficar no Brasil muito tempo. Tento focar em trabalhar por não saber resolver nada, estou ficando deprimido e menos esperançoso, mas é momento de aguentar firme. Sempre foi momento de aguentar, de ter paciência, de tratar ferida por ferida dela, mas eu estava deixando as minhas de lado.
• Com excesso de problemas acaba demonstrando enorme desmotivação, passando o dia sem atividades. Ignorar ter um relacionamento comigo e, então, não ter um motivo para estar em casa, traz discussões com minha mãe. Ninguém poupa Ka, sinto a pressão sobre ela. Eu já tinha visto isso antes, e já tinha conseguido ajudar ela, nem que seja apenas subindo no alto de um prédio para assistir o nascer do Sol. Mas agora eu também estava mal. Não gastava energia nem para pensar, era tudo para trabalhar ou estar pronto caso ela precisasse de algo.
• A mãe dela faz seguidas pressões; que busque um emprego de pacoteira em supermercado, que eu enjoaria dela. Não sei como reagir a isso, é apenas pragmatismo da mãe dela que já tem vários outros problemas, tento tornar uma chacota, na minha cabeça ambos são absurdos. Digo que não precisa aceitar qualquer emprego, não ficará desamparada, tenho em mim a ideia que resolveremos tudo rápido. Tudo que afeta o orgulho dela tem peso maior, colocar compras em sacolas já é demais. Penso em pagar para ela cuidar da reforma de uma casa em Apucarana, mas preciso trabalhar para isso e os dias estão muito curtos para soluções, muito longos para problemas.
• Uma visita à Day no MT parece uma boa oportunidade de animar ela. Mas a falta de planejamento e a ausência de espaço na vida da Day não são o esperado. Uma capivara acaba sofrendo um acidente no caminho, que também deve ter aumentado o stress da Ka. Ela estava dirigindo o carro com o qual eu trabalhava, nem o acaso poupa ela. Acordei assustado e quando vi aquilo, uma vontade de gritar, mas era a Ka que estava ali comigo, tão ou mais nervosa e preocupada quanto eu. Estou bem perto do limite de quanto tempo consigo segurar os problemas calado.
• A visita ao Brasil parece que irá se esticar, tento sempre me referir aos problemas como nossos. Ka começa a ficar introvertida, ela que falava 26 horas por dia passa a ficar quieta. Após alguns dias na casa dos pais ela se comunica de forma espaçada, não manda informações completas, parece distante. Revejo o dia em que ela se machucou, tenho um pico de stress, brigo com ela. Paro de trabalhar, ando na calçada, ela tem o direito de fazer o que quiser consigo mesmo, eu não posso evitar ou brigar com ela por isso. O problema cresceu demais, precisamos de ajuda. Encontro depois de muito tempo com amigos, bebendo em uma praça, teria desmarcado um encontro naquele dia, estava muito abalada. Cerca de meia hora depois já estávamos melhor, dormimos juntos, teria sido apenas um problema passageiro. Sinto vergonha do que fiz, não acho que me desculpei o suficiente, sinto vergonha das pessoas ali também.
• Querer trabalhar por muitas horas, ter receio de ser também uma pessoa a pressionando, não saber o que posso pedir, ela distribuir o tempo dela entre várias casas e o número constante de novidades em pouco tempo me faz atrasar conversas importantes.
• Ka me manda mensagem durante o dia, discussão com minha mãe, queria se mudar. Digo que busque outro lugar e nos mudaremos. Debra oferece um quarto, ela vai na frente. Ao chegar lá não sou aceito, Ka fica mesmo assim. Ainda que triste com a decisão dela, preferia ela em um hotel do que aceitando ficar onde não posso entrar, aceito e já coloco nosso quarto para alugar. Debra tem namorado e Jeny já havia dito sobre não querer um homem lá. Compro briga dela com minha mãe, fico sem cartão de crédito, não sei onde irei ficar se ela não achar um lugar rápido.
• Dois dias depois busco ela para um lanche (vai ser um dia importante onde tenho que contar que logo não terei onde morar), ela diz que quer morar em um lugar sem que eu more nele. Estraguei a confiança que ela tinha em mim, tento encerrar a conversa para pensar com calma e resolver aquilo depois. Ainda não sei como ela escolheu esse momento para me dizer aquilo, menos de meia hora depois parecia arrependida. Ela insiste que não estamos terminando, peço para entrarmos e conversamos, ela diz que não posso, que ela mora em um lugar onde não sou bem-vindo. Entro em desespero, Debra chega, peço minhas coisas que ficaram lá, ela chega a entregar até o celular, pedi, mas recusei, não estou raciocinando mais, vou embora. Pedir minhas coisas é o jeito desnorteado que tenho de dizer que vou embora, ao invés dela ser contra ela defende o bem material, realmente não estamos nos entendendo.
• Dias depois, sem entender a situação, tento contato, não consigo. Outras pessoas me dão informações sobre ela. Estaria saindo com outras pessoas, estaria machucada, estaria depressiva. Dizem que fiz mal para ela e que agora ela não sai do quarto, que está morando de favor e não fala com ninguém. Não estou me alimentando ou dormindo normalmente há mais de um mês.
• Ela tinha devolvido também meu cartão de crédito que entreguei quando fomos visitar a Day, mas também fiquei sem ele. Como ela estava sem dinheiro nem emprego peço para outras pessoas que entreguem para ela. Enviei dinheiro várias vezes, além de chocolate e repelente, não sei quanto chegou pois não tive contato com ela, mas era tudo que eu tinha por mais de semana, quase um salário. Penso que temos problemas, mas ainda devo lealdade.
• Entrei em contato com todos que consegui, todos deram informações pela metade e ninguém demonstra saber o real problema, ou todos sabem um e são muitos. A madrinha dela é a familiar que acreditei poder entrar em contato, chama Ka de mentirosa, deixo de confiar nela e mudo o assunto da conversa. Passo a não ter nenhuma informação confiável de seu estado.
• Com problemas de dinheiro, ainda reparando o carro, resolvendo sobre minha moradia, e com muitas informações ruins sobre o estado dela, eu resolvo ir na casa da Debra, idiotice. Mas eu não aguentava mais falarem que ela estava mal e ela permanecer em silêncio. Eu nem saberia como ajudar, mas fui. Sou devidamente mal recebido, Ka não estava lá, encontro ela em um ponto de ônibus, ela tem machucados na perna, uma marca roxa no pescoço, me sinto mal de quase cair no chão. Diz sentir saudades, mas não pode me ver, sai andando sem nenhum desfecho, pede para que eu me comunique pelo Facebook. Continuo querendo falar com ela, nada na minha cabeça faz sentido, Debra chega, ela vai embora. Meu corpo todo treme em uma mistura de fome, sono e medo, parecia louco. O desespero estraga qualquer chance de diálogo.
Com todos esses problemas em nenhum momento chegamos a brigar de forma a dizer claramente um ao outro que alguma atitude desagradou. Uma enorme falta de comunicação e ruídos externos. Todos problemas que tivemos pareciam que poderiam ser resolvidos em pouco tempo ou que não seriam motivos para esse desfecho. É fácil passar por cima de um ponto fora da curva de alguém estressado, mas a exceção não pode virar rotina.
Após conversa com psicólogas:
No dia que eu fiquei correndo atrás dela por que ela agia estranho eu não sei se conversei com ela o motivo, pois não toco no assunto. Mas foi por eu ter um problema mal resolvido da última vez que cheguei em casa e ela estava se machucando. Mas depois parecia que nada seria motivo, e ficava difícil se desculpar por agir mal se estávamos mal todos os dias. Eu teria que ter aprendido como falar. É a primeira vez que começo a ouvir mais de uma interpretação. A vida dela, é dela, eu só posso ajudar se convidado.
Ela também me contou que eu dizia pra ela que ela só dava trabalho. Eu não deveria dizer isso, deveria contrariar ela. Mas eu estava mais preocupado em coisas como não contrariar a relação com os pais ou o por ela não assumir nada comigo do que lembrar ela o quanto minha vida era melhor quando ela ajudava em tudo.
Sou comunicativo, menos com ela, o receio em colocar qualquer pressão nela fica claro em detalhes. Eu não me arriscava por ela. A mãe dela fala com naturalidade que ela foi demitida por causa do atestado, eu que sabia disso semanas antes não falei pra ela se preparar.
Ela dormir todo dia comigo, mas falar em conhecer outras pessoas, fazia ela entender que eu tinha uma segurança que eu não tinha, eu não expunha isso. Há um ego ferido, ela falar da Day não me atinge em nada pois sou citado em condição de igualdade, já com outras pessoas nada está claro. Eu não falo, ela não entende. Culpa minha. A menina largou tudo e viajou comigo pra outro país, ela é corajosa. Eu não consigo nem falar com ela. Ela me falar que está apaixonada dias antes de irmos, mas não assumir um namoro comigo nem para estranhos na rua faz, na minha cabeça, uma dúvida sobre o como juntos estamos.
Parece que há em mim um bloqueio em ouvir quem cogita criticar ela. O que pode me impedir de ouvir coisas úteis. Não posso tentar falar com ela sem saber os efeitos disto. Passar por dias ruins foi fácil por várias vezes, mas quando os dias eram seguidos passou a nos fazer mal. Ela foi a primeira a perceber que não estávamos conseguindo. Sigo buscando pessoas que apontem meus erros. Não acreditando nos meus julgamentos tento agora listar fatos e perguntar muito para outras pessoas.
Listando erros:
• Já conheci a Ka tendo diversas cicatrizes no corpo, nunca conversamos sobre como lidar com isso. Day parecia saber sobre o tema e procurei ouvir, ninguém está preparado. Não me preparei, não tinha nenhuma experiência e não busquei ajuda devida.
• Ka me dizer que já estávamos como casados, mas não dizer nada aos outros, era sinal de problema que não fiz nada sobre. Parece que as únicas pessoas que ela disse ter falado sobre isso eram colegas de trabalho no Uruguai, com as quais não tive nenhum contato e mesmo assim não parecia algo sério, uma experiência dela em dizer que era casada com duas pessoas ao mesmo tempo.
• Ansioso, por solução/compreensão dos fatos, eu falei com quase todo mundo que tinha algum contato com ela, mas eram pessoas que não falavam comigo antes. Julguei que eles eram parte do problema, brigava e implorava ajuda simultaneamente. O único limite era que algo prejudicasse ainda mais Ka, então não questionei ela (antes, depois, presencialmente, por internet) nem seus pais. Conversas apenas por texto com pessoas que não me conheciam foi um erro.
• Tivemos um relacionamento muito intenso sem um período de adaptação, sem nome que o definisse, foram dois meses apenas, mas mesmo após quase o mesmo período eu ainda não como ou durmo direito pensando em como ela foi afetada.
• As diferentes versões que cada pessoa passou a me apresentar da Ka, junto com o hábito de me dizer algo e aos outros outra coisa, normalmente sob pressão, me fizeram não saber que decisão tomar. Acreditei que ambos não estávamos sãos. Passei a pensar que sem uma ordem direta da Ka – seja de aguardar, esquece-la ou fazer algo – seguir e ignorar seria como traição/abandono. Agora apenas aguardo e busco ajuda profissional.
Resultados positivos:
Ka tinha medo de tomar decisões, até mesmo de encerrar um curso que ela não tinha vontade de ir. Ter tido a coragem de largar o emprego que ela tanto reclamava e embarcar em uma aventura dessa vai mudar a vida dela pra sempre.
Havia um bloqueio de libido nela, em pouco tempo já tinha a incentivado a entrar no Tinder, rever seus interesses, cogitar interesse em meninas. De interesse nenhum passou a alguém que tinha dez vezes mais libido que eu. Desinibida a ponto de conseguir flertar com estranhos ao primeiro encontro e não ter medo de expor publicamente seus desejos.
Tinha dirigido pouco até então, mas dirigiu vários carros que alugamos, no Brasil e no Uruguay. Aprendeu um pouco de espanhol e a menina que mal falava com colegas de trabalho agora conversava com pessoas de vários cantos do mundo. Inclusive as primeiras puxadas de assunto para falar com alguém que ela tinha interesse eu vi começar. A liberdade dela conseguir qualquer coisa era mais importante que a expectativa de definir qualquer relação entre nós.
Da menina que era vista como a pequenina do grupo para a mulher que causava inveja. Se por um lado discutir com as amigas não era bom, o motivo me fez feliz. Ka estava construindo suas histórias.
Abusos que cometi:
- Com minha primeira namorada havia uma diferença de libido de cerca de 10%, coisa minima, com um e com outro, era algo que oscilava. Com a segunda nem minha coxa era perdoada, a diferença sempre foi notável, não chegou a ser um problema. Com a terceira foi, eu quase sempre queria fazer minha parte de uma forma alternativa, mas não percebi a dimensão do problema até depois de terminarmos, informado por terceiros. Com Ka eu sentia vontade, mas não chegaria a ser algo diário. Eu queria bem menos do que ela, era uma de nossas atividades motivo de atrasar ir trabalhar, eu sentia uma pressão por não chegar ao meu clímax (um medo também disso se tornar um problema), e parecia fazer bem para ela. Eu apoiei e até ajudei ela a conseguir fazer isso com outras pessoas, além de conversar com outras pessoas sobre como me comportar quando ela faz isso. No final ela se sentiu manipulada por mim, tudo isso seria um plano para ela querer ficar comigo (ainda lembro que nos últimos dias que vi ela uma de nossas conversas era sobre insistirmos em ela ter melhores experiências com mulheres - eu era sempre a pessoa para quem ela falava em ir e eu já ligava o carro). Tenho que aprender em como minhas ações a manipularam a querer ficar comigo, já que ela disse isso.
- Não só ficar comigo, Ka deveria ser hétero. De alguma forma eu a manipulei para isso. Mas estou relendo uma conversa de oito meses atrás quando eu estava dando conselhos de que não se declarasse bi para Fran, menina que estava na minha casa e com a qual poderia rolar algo (mas ela tinha preconceito com bis). Também fui o primeiro a fazer questionar essa opção, a ter a ideia de viajarmos até a Day, pedi diretamente pra Day, incentivei ela a entrar em redes sociais de encontro no Brasil e no Uruguay. Demonstrei desejo de que não fosse omitido de mim os acontecimentos, mas ainda não aprendi como minhas ações manipularam ela na direção de ser hétero.
Manipulações que já conheço:
- Não me envolvo amorosamente com alguém com intenções que não sejam nutrir sentimentos entre nós. Não posso fazer isso por me sentir sozinho, por estar com raiva ou saudades de outra pessoa. Não devo desejar uma pessoa e estar com outra. É algo que sei identificar fácil, um erro que não vou cometer. Mas não garanto que sei quais as intenções de Ka comigo nos últimos meses. Cheguei a ouvir que ela dizia gostar de mim apenas para não ficar sozinha, ou para que eu não parasse de fazer coisas por ela. Isso seria um erro, pois eu me sentia bem mais seguro em relação a nós dois quando ela dizia um não e agia como um não, do que quando a forma de agir e falar não combinavam.
- Entender 'não' como 'sim', o 'não' como 'algum desafio', palavras terem sentidos diferentes do que deveriam ter era pra mim uma falha de caráter masculina machista. Se a pessoa não está bêbada ou em lágrimas por um problema recente não tenho motivos pra duvidar dela. Baseado nisso que a primeira vez que tentei ficar com a Ka tinha outra menina perto, outra foi na casa dela, sempre de forma em que ela tivesse facilidade em dizer não. Ao mesmo tempo isso me dificulta entender que dizer não para ela seria uma forma de manipular, ou que apoiar ela ter relações héteros, homo ou bissexuais era também uma forma de manipular ela (eu não disse para ela desistir em nenhum momento, ao contrário, que tudo sempre tenderia a melhorar). Meu sim era sim, meu não era não, o pouco que eu conseguia dizer não tinha dois sentidos.
Desfecho:
Na última vez que a vi ameacei contar aos pais dela, a ameaça mais vil que imaginei no momento, pedir para alguém interceder naquela loucura. Como resposta ela finalmente disse para alguém que tem um relacionamento comigo, que se transformou em um ano e que continha agressão. Ao menos foi o que ela disse para alguém na delegacia da mulher.
Era a pessoa para quem eu acordava de madrugada para verificar se estava suada, e isso a faria se coçar e se machucar, ou se a noite tinha começado quente e, após chutar a coberta, estava com frio, mas agora era a pessoa que me queria preso.
Em nenhum momento eu deixei ou passei a gostar menos dela. O que mudou é que agora não pareço mais útil.
Prática e teoria:
Não quero fazer mal, seja para Ka ou qualquer outra pessoa. Então não estou em condições de ter um relacionamento com ela ou outra pessoa se não sei identificar e corrigir meu comportamento. Mas é algo tão confuso que ninguém chega a um consenso. Podemos todos afirmar que Ka se sentiu manipulada e abusada, mas se pergunto como deveria ter sido não encontro resposta.
Se manipulei ela para gostar de mim, então todo mundo que gosta de outra pessoa fez o mesmo em algum momento.
Se manipulei ela para se relacionar afetivamente comigo então ela fez isso mais do que eu. Em muitas vezes eu não estava à vontade, o que pode ficar claro na minha dificuldade de chegar ao clímax, cada vez mais frequente com o passar do tempo. Fica demonstrado também que a ideia de relações com outras pessoas era uma condição dela em resposta a ter sido o motivo de separação com seu ex. Em nenhum momento o não dela foi ignorado ou o sim dela para outras pessoas foi reprimido (alerta para que eu cheguei a conversar com outra pessoa sobre como eu deveria me comportar - como o que fazer caso ela traga um estranho para nosso quarto, se eu tenho que sair e coisas assim), (alerta para que eu também achei que poderia pedir para ser informado sobre os acontecimentos, também não é bagunça e existem métodos contraceptivos).
Se manipulei ela para ser heterossexual então é um enorme mal entendido. Poderia ser facilmente acusado do contrário, de ter manipulado ela para ser bi ou para ser gay. Mas heterossexual é ofensa. Não consigo nem comentar essa possibilidade.
Tudo que foi dito é bem claro e fácil de aceitar, a menos que de junte todos os fatos e coloque em prática. Podemos ter cometido erros, mas ou o fizemos em ignorância ou paramos de os cometer.
Intenções:
Ela me tinha na mão dela e sabia, e fez uso disso. Foram meses em que nossa amizade era um refúgio para ela frente aos problemas com outras pessoas. E eu não iria querer brigar com a pessoa que eu mais gostava. Ela sabia disso e me mantinha por perto sem um claro interesse em mim. Eu me sentiria mal se fizesse isso com alguém, mas não acho que a intenção dela era me fazer mal, apenas pensava que aquilo faria mais bem à ela que mal a mim.
Ela chegou a confessar que sabia desse controle e que a abusava dele, eu pedi que ela tivesse moderação nele. Quando a situação dela melhorou e passo a precisar menos de mim aquilo cessou.
Até agora não vejo nenhum de nós tendo algum comportamento que tivesse como objetivo fazer mal ao outro. Sempre ouvimos o outro e consultamos outras pessoas para aprender como agir.
Não entendo ainda a raiz de dizerem que ela sentia medo que eu fosse perseguir ela. Eu fiquei por duas semanas aguardando ela entrar em contato e só fui falar com ela por dizerem demais que ela sofria. E não entrava em contato com ela, mesmo precisando muito da ajuda dela, por achar que ela estava melhor que eu e seria pior me ver como eu estava. Recebo tanta informação dela que sequer precisaria procurar ela, acho que fiquei sabendo do seu emprego assim que começou, das psicólogas, das ações que foi tomando contra mim. Não encostei um dedo sequer nela, ao contrário, quase desmaio ao ver seu corpo com marcas. Não sei como ela conseguiu concluir que alguém que estava incondicionalmente do seu lado poderia ser uma ameaça.
Momento de tensão:
Errei em não deixar Ka ciente das consequências de seus atos. Assim como não avisei que ela seria demitida eu não avisei que eu dependia de planos com ela para ter onde morar. Quando disse que ela estava me abandonando ela não deve ter entendido que eu não sabia onde iria morar e estava com medo, dividir um lugar com ela seria muito importante naquele momento de vários problemas financeiros.
Ka foi orientada em desistir do diálogo comigo, mas tínhamos tantos problemas que eu também acharia tentador apenas fazer o que outra pessoa dizia com a promessa de que tudo ficaria bem. Porém eu tenho uma resistência maior que a dela em aceitar quem fala mal da pessoa que eu confio.
Caso suspenso até novidades:
Eu não poderia ter medo dela, nem ela poderia ter medo de mim, para conseguirmos passar por tanta turbulência. Cheguei a conversar com ela de que teríamos problemas assim como os que ela diziam que os pais dela enfrentaram. Mas tivemos pouco tempo para nos preparar e o mais importante, não conseguimos deixar o outro seguro, sem uma base não dá pra só ir dormir no sofá e resolver amanhã. Sem um compromisso tudo acaba na primeira tempestade.
Futuro próximo:
Ka já se machucou uma vez por achar que estava sendo uma pessoa ruim, se eu for preso com uma acusação de estupro preciso de uma ótima ideia de como ter certeza que ela não sentirá nenhuma culpa. A confusão dela vai durar menos que a minha pena. Eu não vou proteger ela de suas decisões pra sempre, mas posso não estar aqui para ver como isso continua.
Digamos que tudo isso passe, não ficamos juntos, não resolvemos nossos problemas, não amadurecemos com nossos erros e continuamos deixando outras pessoas decidirem nossas vidas. Não é exatamente o que eu esperava de nós dois, ela tem mais potencial que isso.
Digamos que tudo isso passe, sobrevivemos a tudo isso e ainda conseguimos ficar juntos. Para isso acontecer nós teríamos que desfazer uma enorme bagunça com muitas pessoas que foram afetadas. Com certeza, se passar por isso iríamos passar fácil por quase qualquer coisa, mas eu iria carregar pra sempre um alerta acima da minha cabeça onde todos estariam prontos para me ver como problema onde ela só perdoou por pena.
Do meu lado, Ka é uma boa pessoa, mas não sei explicar para as pessoas que eu estou defendendo uma pessoa que faz tantas acusações contra mim e, mais, não sei como seria a relação com alguém que teria tanta noção do que pode fazer sem que eu desista dela, sinto que ela poderia pensar que me tem completamente em suas mãos. Junto a isso parece que ela não perceber isso esse tempo todo foi um dos principais motivos da maioria dos problemas.
Soluções:
Pra mim ninguém está fazendo nada por mal. Numa solução utópica eu colocaria todos em uma sala de aula com um grande quadro para desenhar todos acontecimentos e explicar como as coisas foram dando errado até onde chegaram e ficaria claro que fomos apenas vítimas do acaso, ingenuidade e falta de comunicação.
Mas nem todo mundo quer solução, tem gente que quer distanciar quem pensa diferente e calar a discussão. A solução mais fácil veio causando muita dor, a solução que melhor resolve vai precisar de muito esforço e maturidade.
Obs: Não gosto de chamar ela de Carol, ou de Carolina. Eu gosto de reler mensagem onde ela me chama de 'amô' e gosto de lembrar de momentos onde ela tinha tantos planos que era fisicamente impossível realizar todos, gosto de lembrar dela incomodando os outros com toda felicidade dela.
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